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domingo, 24 de outubro de 2010

Discurso de Formatura.


Boa noite a todos os presentes convidados, colegas, professores, funcionários.

Disse Saramago uma certa vez: "Nossa maior tragédia é não saber o que fazer com a vida". E o que é que sabemos até agora? Na realidade, muito pouco, mas estamos aprendendo.

Há muitas palavras para descrever o que passamos, e ainda mais palavras para descrever o que esperamos da vida a partir de agora. O problema é proferi-las sem contradizer uma ou outra pessoa, ainda mais sabendo de todas as diferenças encontradas não somente entre os formandos, mas entre todos que estão aqui presentes. Entre os politizados e os que apenas querem curtir a vida, entre os chamados “nerds” e os “populares”. Talvez no fundo sejamos todos iguais, todos buscando viver.

Muitos dirão que a vida é feita de atos, outros dirão que a mesma é feita de palavras. Eu digo que a vida é feita de música. Todos os momentos, todas as fases. Somos partituras vivas. Partituras que ainda serão incrivelmente modificadas e nunca estarão perfeitas, mas podem muito bem ser um grande sucesso. E quem nos escreve? Quem nos modifica? Começa com a família, depois amigos, depois professores... Cada partícula da sociedade coloca uma nota diferente.

Por falar em professores... Agradeçamos a eles pelo que nos ensinaram, e também por aprenderem conosco. Talvez uns tenham marcado mais que outros, talvez uns tenham lidado melhor conosco do que outros, mas no final todos eles são pessoas que mais tarde nos lembraremos com uma sensação boa e saudosa. Mais que professores, companheiros. Mais que companheiros, amigos. Então acho que falo por todos ao dizer: obrigada por tudo, pelas experiências; pelo apoio, do fundo da alma.

Quanto aos colegas de sala, nada se compara ao paradoxo de carinho e irritabilidade existente entre nós. Sim, porque nem tudo são flores. Mas é com eles que aprendemos a lidar com cada tipo de gente existente, desde o mais introspectivo até o mais extrovertido. Construímos aqui amizades fortes, elos que decidimos serem inquebráveis. Também formamos relações de inimizade, algumas realmente sem muito sentido, outras com razões ainda discutíveis e mesmo assim estamos todos aqui, comemorando juntos.

Comemorando juntos... Afinal, qual o sentido dessa festa toda? Viemos aqui, vestimo-nos belamente, para quê? Criamos expectativas, esperamos ansiosamente pelo fim do Ensino Fundamental... Mas ainda temos três incríveis anos de escola pela frente. Não falo em tom de ironia, realmente acredito que o Ensino Médio possa ser uma das melhores fases de nossas vidas. E para aqueles que se desanimam com isso... O que são mais três anos para quem já enfrentou oito?

Para o fim desse ano tudo o que precisamos é ânimo. Ânimo para continuar vivendo, aprendendo e ensinando. Ânimo para continuar conquistando, caindo e levantando. Somos o futuro, não somos? Então por que não tornar esse futuro algo surpreendente? Cazuza diz que o tempo não pára... Se não o aproveitarmos da melhor forma possível, será difícil ser feliz.

Novamente em palavras de Saramago: "Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa somos nós". E nós, meus caros, somos responsáveis por muita coisa. Lembrando que o mundo é santo, nós que o deixamos malicioso.
Obrigada mais uma vez, e tenham uma boa noite.


(Ninna de Moura Abreu – Oradora das turmas de 9º ano do Sigma Norte de 2010.)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Babybosê Lukit (ode ao Lukito)

Tuas dúvidas meio certas,
Teus anseios em tuas letras.

Vida calma, agitada.
Complexo de paradoxos.

Em poucas palavras,
Menino mudo de muitas falas.

domingo, 19 de setembro de 2010

Olhar do desespero


Estava eu e as amigas, divertindo-nos mais do que parecia possível, em um barzinho de uma esquina qualquer. Entre gargalhadas e lembranças meus olhos se esquivaram para o restaurante ao lado, onde pude observar uma família um tanto quanto atípica. Antes de todos, eu o vi; alto e magro, traços bonitos, óculos de grau. Sentava-se à frente de uma jovem pequena e chorosa, completamente desesperada. Ao lado dela, uma senhora bonita, mas deprimida o suficiente para marcar-se em minhas lembranças mais melancólicas. Para completar o quadro um senhor de rosto memorável, no qual se percebia a indiferença para com o momento.

Encarar a cena chegava a ser constrangedor, mas prendia minha atenção de forma a não me deixar desviar o olhar. Comiam quase que em silêncio ferino, com exceção da jovem que continuava a chorar sem interrupções. Dava-me náuseas. Na verdade deixava-me saudosa de um dia específico de um ano sem outras recordações, no qual mamãe chorou em um enterro de gente desconhecida por mim. A mulher mais velha fitava o senhor com os olhos penosos, enquanto este dava mais atenção ao garfo cheio de comida.

E havia ele. Observando apenas a ele, não existia mais ninguém naquela mesa, naquele restaurante. Exalava demência, ódio e discórdia. Foi o momento mais gélido de minha vida aquele em que nossos olhos se encontraram. Por trás das lentes, puro desprezo, por trás da íris, morte. Creio que era isso... Nada mais que morte e brutalidade. Talvez o medo do rapaz passasse isso a mim, aos meus nervos. Apertava a faca de serra com toda a força que tinha, saltando-lhe as veias. Por um breve instante eu acreditei que ele fosse atacá-la.

Então chamaram-me, cutucando meu ombro. Sorri transtornada para a mais bonita de nós e levantei. Senti uma lágrima descendo minha bochecha que provavelmente estava pálida – como fora confirmado por uma outra amiga -, e fui até a mesa dos desconhecidos mais familiares que eu poderia encontrar. Coloquei minha mão no ombro dele, apertando-o, e depois fomos todas para casa. Boa sorte fora meu tom naquele toque, esperava seu controle mais que qualquer um daquela mesa. 

sábado, 18 de setembro de 2010

Olho por olho, dente por dente


Via-se de longe o casal, chamava muito a atenção. Ela não tinha mais que um e sessenta, ele não tinha menos que um e oitenta. Duas pessoas incrivelmente estranhas, atípicas. O fato de ela ter um ponto de interrogação tatuado na batata da perna direita não era nada comparado ao de ele usar um kilt de brim preto. Ela abraçava sua cintura como se abraçasse o mundo, ele tinha o braço sobre seu ombro de forma a deixar claro para todos que ela era toda sua.

Eles não tinham época, não se encontravam em década alguma. Pareciam, na verdade, alheios a qualquer medida de tempo, como se o mesmo não existisse. Nenhum dos dois levava um relógio no pulso, era dispensável. Não havia sorrisos, a exceção de quando seus olhares se encontravam. As pessoas pareciam evitá-lo, eles retribuíam o gesto. Só queriam ficar juntos e sozinhos, como se nunca tivessem feito isso.

Passando por um banco ele sentou-se, puxando-a para si. Beijou-a com tanta intensidade que parecia sugar sua alma. Não que fosse necessário, sua alma já era dele. Ela entregava-se por inteiro, agarrando seu pescoço e retribuindo tudo o que lhe era proporcionado. A relação deles parecia ser assim; olho por olho, dente por dente. Ela tinha medo do fim daqueles dias, que parecia cada vez mais próximo, e ele sabia disso.