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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Que haja calma.

Fotografia por Isa Valença


E que o leve
De leve
Me leve
Me trague
Me quebre
De leve
Me pegue

E que o doce
Com doce
Me adoce
Me cospe
Me jogue
Com doce
Me toque

E que o sujo
Tão sujo
Me suja
Me passa
Me lava
Tão sujo
Me caça

E que o tudo
De tudo
Me entulha
Me busca
Me encruza
De tudo
E sossega

E que o leve
De leve
Me leve
Me trague
Me quebre
De novo
Me pegue

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Pulo do Gato

Fotografia por João Paulo e Paulo Ricardo (GemeosVB)


mia miado cantado de gato
molhado mesclado cheio de tato
fugido o rato cansado do chato
bastardo de faro é pulo em jato
achado em buraco de mio miado
pedrado cantado temido e cortado
esse pulo certeiro de gato do mato

domingo, 2 de dezembro de 2012

Quatrocentas e uma palavras sobre a escuridão.

Fotografia por Isa Valença

Piano. É um piano tocando incessantemente uma música tão calma que dá calafrios. As sombras dançam, deslizam, ao som do piano inquieto... A música, lenta e fúnebre, passeia por cada canto da escuridão. As luzes são pequenas, longínquas demais para serem realmente luzes. E tem aquele vento que te persegue, te domina. Mas não tem perigo, tem? Ser amante do noturno, digo. Caminhar pelas vibrações eloquentes das cordas de piano, abraçar o vento – seja ele frio ou quente –, visitar as luzes formadoras de sombras longas e disformes.

As ruas costumam ser úmidas e gélidas nessa época do ano, principalmente à noite. É quando não se fala. E mesmo o piano que toca é um silêncio incomum. Os passos são ocos como o som que fazem. Você sabe, não sabe? O som que fazem os passos durante a noite, na brita molhada. Oco, duro, pesado... Som de vazio. Vazio que te preenche por ser amante do noturno. E logo, dessa forma, você está preso no silêncio escuro que te cerca. E você se torna o silêncio escuro que te cerca. O peso é maior. A luz te mostra os prédios, os muros desenhados, as janelas fechadas... A luz é íntima e ínfima. Mas pelo menos você vê. Porque se só sentisse...

O sentir é perigoso. Se você sente, você é. E sentir somente seria tornar-se por completo aquele meio de vazios obscuros. Não que o sentimento nele seja ruim, é apenas torrencialmente envolvente. O caso é que se você vê, com a ajuda das luzes fracas, pequenas, longínquas... Se você vê, a perspectiva é outra. E você não está mais sozinho. Está com os prédios, os muros desenhados, as janelas fechadas... As árvores tortas, os mendigos que dormem, os sonhos que vivem. Pesadelos?... Um... Soar... Voraz... Do que... Existe. Ou inexiste.

Talvez o pior seja não ser a escuridão silenciosa de si próprio. Tornar-se puramente luz e sons é um terror diferenciado. A luz acalma e não te eleva, os sons confundem. Talvez a função da noite seja o pensamento longe. Quem sabe a função da escuridão seja a reflexão silenciosa de se temer mais que ser. E o que se vê na escuridão é mais que o vazio do sossego. O que se vê na escuridão é o interior de tudo aquilo que na luz se faz superficial. Porque pelas luzes pequenas, até as sombras são maiores que o normal.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Bom dia.

Fotografia por Pedro Santos


a hora de acordar
me consome mais
que a madrugada
escura dos meus
passos de noites
andarilhas pelos
sorrisos errantes
cativantes, tensos
e temidos daquele
monstro de pedra
feito na cidade
perdida do sonho
que foi o meu
ou seu
próprio desejo
de pequena palavra
doente inércia
que é essa
hora de acordar.