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segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Butzemann

Quando eu era criança miúda, tinha um monstro embaixo da minha cama. Eu tinha medo dele, muito mesmo, por isso dormia entre os meus pais - é que embaixo da cama deles não havia monstro algum. Eles, os meus pais, diziam que era bobagem e que monstros não existiam; mas se não existiam, por que que eu sentia tanto medo daquele que ficava embaixo da minha cama? 

- Mas você já viu esse monstro? - já me perguntaram.

Teve uma vez só que eu o vi. É que, nessa noite em questão, eu tive que dormir no meu quarto e ele saiu de baixo da minha cama e ficou me olhando da porta. Eu não consegui gritar, nem parar de olhar, só encarei de volta mesmo. Eu, com meus seis anos, fiquei encarando o monstro que estava na porta do meu quarto, e ele ficou lá parado a noite inteira. Ele nem tinha um corpo definido, não tinha um rosto, não tinha nada. Era só um vulto. Uma sombra que parecia de fumaça. Eu sei que ele estava me olhando porque eu não conseguia me mexer, acho que era algum poder que ele tinha de me deixar ali parada, com os olhos lacrimejando de medo. 

A gente se mudou daquela casa, e da seguinte, e da seguinte, e da seguinte… Eu fui crescendo, troquei de cama, aquela era muito pequena para mim. O monstro cresceu também. Ele saiu de vez de baixo da minha cama, acho que porque ele cansou, queria passear um pouco. Então ele me pegou emprestada para isso. Uma noite, lá pelos meus onze anos, enquanto eu dormia um sono desses profundos, o monstro vulto-sombra se fez fumaça e entrou pelas minhas narinas e boca. Eu sei porque acordei assustada e o peito doeu. Tossi duas vezes, mas nada saiu, só o choro. Eu chorei muito, porque o peito doía e eu não entendia a dor. 

Eu não gosto do monstro. E ainda tenho muito medo dele, porque eu sei que ele também não gosta de mim. Por estar aqui dentro, e por ter passado tanto tempo embaixo da minha cama, ele me conhece como ninguém, quase tanto quanto eu mesma. Tem dia que ele dorme o dia todo, eu tento não fazer barulho para não o acordar; tem dia que ele está agitado, e aí eu me canso por dois. Tem dia que ele resolve voltar para debaixo da minha cama, mas ele, por algum motivo, precisa que eu esteja perto, então me segura para eu não conseguir levantar. Tem dia que ele me conta histórias muito tristes e me faz chorar. Ah, e ele gosta muito de cavar.

De vez em quando, o monstro aparece no espelho - com a minha cara mesmo, com o meu corpo mesmo - e ri de mim. Teve um dia que ele me fez acreditar que todo mundo estava indo embora, que eu estava perdendo tudo aquilo que importava. Nesse dia eu tentei tirar o monstro de mim, porque ele estava cavando fundo no meu peito, com as garras mais afiadas do que nunca. O buraco estava ficando cada vez maior, e eu não sabia mais o que fazer. Pedi para ele parar, implorei para que parasse, mas o monstro nunca me ouviu - ele só para quando quer. Nesse dia ele não quis parar. Fiz parar à força. 

Ele só parou porque eu parei. Parei de pensar e sentir. Eu sumi por uns minutos. Mas depois eu voltei. E o monstro voltou. Enfraquecido, mas voltou. Só que ele se fortalece rápido, é estranho. Quando quer, ele fica bem forte. E volta a cavar. Eu consigo pedacinhos de mim para repor o que ele cava, mas demora um bocado. Esses pedacinhos vêm de várias formas, e eu gosto quando eu os consigo. E aí, às vezes, quase parece que o monstro não existe. 

Hoje o monstro está agitado, e está grande. O buraco também cresceu bastante. Eu tento, mas nem sempre consigo meus pedacinhos de mim, e, por enquanto, não acho que já consegui. Agora, que o monstro existe, eu sei que sim. E isso aqui é para ninguém nunca mais desacreditar do monstro que mora em mim.

sexta-feira, 8 de março de 2019

Suspiria

os passos compassados
          parnasianos persistentes
    orgulhosos em seu ofício
de dançar a dança dos homens

pisca-alerta para
         parar, andar devagar,
  esquecer de dançar
                      a dança dos homens

e que lhe jogassem flores no peito
          chorando-lhe sua morte
       de quem não cabe,
                      não serve.

é que já não lhe pertencem
  os passos
              os braços
                         as dores
  de dançar a dança
                           dos homens.

pode, agora, respirar
                   e suspirar
                e aproveitar
o novo bater de asas
       um novo rodopio aéreo
de quem dança
               a própria dança.

quarta-feira, 6 de março de 2019

mágoamiúde

Lembranças quase antigas,
novas demais para serem
                         nostálgicas.
A boca cheia, sorriso aberto,
os olhos de amêndoa quase
    inesquecíveis - mas só às vezes.

Aquele dia que você sorriu
e disse que ninguém nunca
            mais
ia me ferir porque
     você                        estava ali,
e
                                        depois...

Depois me levou até a alma,
quebrando meus cacos em estilhaços
irrecuperáveis de dor. Esmigalhou-me
por querer a
firmeza irredutível fera mansa equilibrada estabilidade
e m o tiva
          e m o cional.

E aí, então, enfim,
seus olhos
             de amêndoa
ficaram
         gravadoscravados,
me maltratando até
meu próximo


                                                                            fim.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

24.09.18

Banho-me em raios solares,
quero aquecer-me logo
e agora.
Sinto falta desse calor
diário, a pele quente
sob a luz desse astro maior.

É que eu sei
que quando voltares,
meu sol se vai e só
sentirei o frio, não,
gélido ar de tuas
palavras distantes.

Por isso, eu quero sol.
De sombra fria, já basta
teus braços com carinho
de mentira.

sonho bom

e então teve esse dia
que eu não sabia que teria
com essa pessoa
que eu não sabia que existia

ela me apareceu pequena
do nada
parecendo que vinha da floresta
meio mística assim
meio bruxa
meio fada

completamente única

bem, entendo que todo mundo é único né
mas era diferente mesmo assim
e mesmo não havendo estranhamento nenhum
veio um sentimento que eu não entendi

e fiquei olhando... ouvindo...
olhei tanto e ouvi tanto
que ela era mais que ela
e eu era quase mais que eu

mas é que esses olhos
e esse sorriso pequeno de lado
e esse rosto todo de
de quê mesmo?

eu me perco nas minhas próprias palavras
como me perdi nas suas naquele dia
de carinho e conversas boas demais

boas demais para serem verdade, eu diria

no fim
será que foi
um sonho?

terça-feira, 24 de julho de 2018

.levantar

quando a tristeza me engole
por completo
eu me encaro de cima
e por baixo de quem sou
eu me desvencilho das entranhas
aos poucos
com minhas próprias garras
de quem luta
quem tem luta diária
quem está de luto de novo
e saio forte,
em cortes de filmagem antiga,
engolindo, eu mesma, quem antes
me devorou inteira

terça-feira, 25 de julho de 2017

úlcera emocional

Mais um copo de café,
aqueles copos de plástico.
Pensar que te beijei me deixa enjoada,
mas ainda bebo o café.

Eu estou cansada, por isso o café.
Quero acordar desse pesadelo vívido
no qual você me colocou, e eu
me enterrei.

Café como cura da exaustão
emocional.
Café como cura, mesmo ao
queimar meus dedos, meus lábios,
minha língua e corroer o meu
estômago, café como cura.

Úlcera que cura o psicológico?
Dói o físico, para não sentir
o emocional.

Fui óbvia, mas não me importo.
Como não me importo com a úlcera.
A obviedade existe,
incomoda,
não a deixo.

Pensar que te beijei me deixa enjoada,
enojada,
mas ainda bebo o café.

terça-feira, 14 de março de 2017

eu sou lembrança viva

eu vou estar na sua mente quando você acordar
e vou estar no seu toque quando você caminhar,
eu vou estar no seu sorriso triste de perda recente,
na sua lua nova quando você procurá-la no céu

eu vou ser essa constante lembrança
que você carrega com dor e pesar
até o momento que você cansar,
vou ser a memória que vai te fazer desistir
e te fazer voltar pra mim

e então, de quem você lembra
quando pensa em sumir?

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

tarde prolongada

antes ser 
uma realidade constante 
em tardes do cerrado 
que ser 
um sonho único 
em dia de praia

teu fogo me aqueceu, 
olhos de amêndoa.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

novo nada

há pouco
dissera-me um louco
que o que me restou do roto
rosto
fora só desgosto.

oloucodomeusonho,
em percepções agora relatadas,
sou eu por estima própria.

sou?

seria um delírio qualquer?


seria eu
um delírio de
minhas sugestivas
dementes
sonolências?

um louco
me disse a pouco
que fugi de mim.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

.carta aberta.

.carta aberta a alguém que parece pesado

tu é moleque!
tu garoteia demais, rapaz!
fica aí escrevendo esses poemas de rapaz fingido de melancolia, como se fosse o próprio Werther versado em palavras de amor por Carlota perdido em pensamentos de "ó mundo por que a efemeridade da passagem humana... mundana...?" e, no mais, tu é só mais um Alberto.
assume a tua responsabilidade de quem racionaliza a porra toda e sente de menos, fica escrevendo teus versos pra mostrar que é gente aí dentro. porque só desse jeito, né? só desse jeito... daqui de onde eu vejo, de onde eu sinto, tu é só mais um Alberto que tá pensando aí o tanto que eu sou patética por sentir demais e chorar e espernear e ser ébria e louca! AH OS LOUCOS! tu que é o louco egoísta que não enxerga um palmo além do teu próprio nariz.
o mundo é bem mais que esse que tu acha que gira ao redor do teu umbigo.
tu tá mandando eu ser egoísta agora, mas tu vai ver que tu é moleque, cara.
tu garoteia demais, rapaz...
a vida dá voltas e a lei do retorno não falha.

não preciso ser orgulhosa e egoísta pra seguir minha vida,
nunca precisei.

.de alguém que está bem mais leve agora

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Meia-noite de terça.

Eu lembro de tanta coisa boba e pequena que você já esqueceu.
Os acenos, os atrasos,
as demoras...
Os abraços apertados.

Lembro de tanto mimo sem motivo que você já não liga mais.
Os sorrisos, os carinhos,
as saudades...
Os arrepios.

Não sei porque que eu
não acreditei
quando me disseram
que amor não era tudo.

Agora eu fico nas memórias,
mas e quando eu esquecer que nem você?

Daí, né? Nada sobra.

Ainda não.

O nome dele soa bem aos ouvidos de quem ama.
O seu sorriso tem jeito de calmaria
constrangida.
O que foi meu mar de águas heroicas,
hoje eu já nem sei.
Ele já nem sabe...
Qual foi o último beijo?
Qual foi o último afago?
Será que a memória incomoda?

Tem dor que, anestesiada
pelo vento, se faz resistente,
                             insistente.

~

O cheiro de homem de peito aberto
aquece-me as narinas;
derrama-me em lágrimas de saudade;
beija-me a ponta do nariz
                  e me sorri
                           as lembranças.

~


Quem deixou
                  a janela
                           da perda
                                     aberta?


Lembra daquele
dia que eu
bati o carro
e nossos carinhos
colidiram?

Me encara no sexo,
me beija na fala,
me sorria no até logo,

mas não fala adeus.
Ainda não.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Abandono



A doença raquítica do terror assombra a criança criadora
de tantos deuses pregadores do amor.

Minha alma carrega a tristeza de uma guerra
e seus corpos, seus gritos,
suas lágrimas de medo.
Minha alma carrega o peso das armas dos soldados do ódio
e seus olhos sangrentos, seus sorrisos culpados,
suas máscaras caídas.
Minha alma carrega a lama e a grana
daquela que parece valer mais que a vida,
a dor do que já foi doce, o rio das partidas.

Se fosse eu aquele deus

- por que me abandonaste?" -
de quem falam os "cidadãos de bem",
choveriam flores e velas a proteger os corações inquietos,
desolados, marejados, inundados e desamados.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Dia 15.

O tempo não   p a s s a   e eu esqueci meu caderno em casa.
Na verdade eu esqueci de propósito para ter uma desculpa para poder ficar pensando em você.
Em você e nos seus olhos.
              Em você e no seu sorriso.
                           Em você e na sua boca...
Macia, su a  v   e...
Lábios de quem pensa
            em amor.

Encarar seu rosto de amante me faz bem, então perdoe-me se encaro demais.
Fito-lhe a alma por encanto.
Já nos imaginou nus em Paris hoje?
Eu te amo.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Breezeblocks





Dançar a passos lentos com o Desconhecido.
Ele estava de terno, não tinha face.
Dançar a passos desconhecidos com o Mistério.
Ela usava um vestido preto e batom vermelho.
Dançar a passos misteriosos com a Luxúria.

Meu acerto foi chorar o leite derramado.
Escorregar no líquido branco com maestria.
Deitado nas lágrimas ácidas.
O perdedor desprovido de dor só perde.
Talvez a ilusão de ótica não tenha sido contida.

Dance comigo hoje à noite,
caídos, derretidos, mesclados.
Seu cheiro invade minha mente,
queria sentí-la mais próxima.
Abrace minha alma só mais uma vez.

Amor inquieto, saudosista.
Fugira-me com gosto e ego largo,
estou perdido no vazio que ficou aqui no peito.
Essa doença podre, pobre de espírito,
ainda vai congelar minha pele morna.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

versus

I
Meu Registro Geral me dava dezesseis anos,
dez-e-seis anos de falta de pureza n’alma, virgindade que se disfarçava
de outra coisa qualquer mais pro lado da safadeza amolecida
“são os hormônios – deixa a menina!”
Acabei me doando de um jeito que até o espírito sangrou,
e não foi pouco não, durou a semana inteira de muita dor. Dor arrastada daquelas
que são mais no ego que no corpo e dão uma sensação de que
“esse mundo cheio de massacres idiossincráticos” – não sei, já estava acostumada.

Meu Registro Geral me dava dezesseis anos
dez-e-seis anos de fogo dantesco nos sorrisos inquietos de menina
intocada. Não intocável, era tudo o que eu queria ser encostada por outro
nas minhas intimidades mais profundas de ser raso que eu era
aos dez-e-seis anos. O problema é que fui tocada errada e
ao invés da intimidade profunda, ele chegou no fundo do meu abismo...

[O problema de se encostar no abismo de alguém, é
que você não sabe que está encostando... Sabe que algo melhorou pra você,
mas não sabe que piorou para o outro.
É que o abismo de alguém é área proibida para terceiros, todos sabem,
mas ninguém cumpre.]

Na semana seguinte, ainda com o espírito dolorido, o ego machucado,
meu sorriso era triunfal de moça vivida
experiência da ingenuidade não corroborada e a legitimação daquilo que chamei
pra mim mesma de amor próprio forçado.

O mundo inteiro me era outro e eu continuava sendo a mesma
porque o meu Registro Geral ainda dizia que eu
vivi ali por dez-e-seis anos... e nele não havia registro nenhum de qualquer tipo
de experiência nova ou velha,
mesmo sendo tão tabu quanto aquela. Acho que a falta de espírito na brincadeira
me deixou murchar de novo, como se ao invés do triunfo
só tivesse ocorrido o sangramento forçado.


II
Os olhos fixos do gato me dão arrepios por me lembrarem
os olhares ferozes de uma nova alma ainda não presente
entre estes que aqui estamos, o socorro advindo de um ventre noviço – o próprio
novelo do gato. Enrolado, enroscado, entre-vísceras, entreaberto de peito
pro mundo novo que se faz ao seu redor. Será? Peralta em breve.

Peralta, certamente; disso sei porque também fui um dia e nem faz tempo -
foi como ontem, se não tiver realmente sido, talvez eu ande algo próximo
do perdido... entre a falta de escolha
e a falta de coragem. Coragem essa que tive no momento errado ao procurar certas
intimidades profundas profanas prolongadas por mais tempo que aquele próximo mês.

Agarrei-me à possibilidade próxima e joguei-me d’um precipício. Sem cordas,
só vendo eu e vento. Banhei-me em sangue alheio e agora...
agora nem sei se dou conta de tamanha loucura criada a dois. Pura demência
essa que carregam por mim. Nem me lembro dos crimes
que cometi, todos foram sem querer... Mas de que isso vale? Já está feito.

O gato agora cruza-me com desdém e isso me irrita profundamente. Eu sou
um deus moderno, apocalíptico como aquela que invadi nessa minha época
de ser quem sempre fui. Agora não o sou mais, sou cinco de dez. Anjo
na terra, caído como quem foi jogado... já que pulei do precipício.
Meia volta, volta e meia, dei de braços abertos àquela puta. Madalena da
atualidade que é. Somos um conjunto de perfeição.

[Perfeição define-se, nesse caso, como algo que tenho como certeza, fora
das iniquidades sociais. O fruto estará aí e provará, nem há vergonha mais por minha
parte, eu estou livre das mentiras criadas por quem viu nada. Assim,
continuamos sendo mais do que quem não estava lá. Madalena
e deus.]

Respirar mais forte como estou fazendo nunca me livrou
de ser o gato que me julga. Nem de
usar todas essas drogas que usei-uso-arei. 

III
Mês que passa corrido como
a galinha que fugia de mim naquela
infância distante que tive.
Há um mês é o mesmo que dizer
há cinco-anos-e-três-meses-e-dois-dias que tive a prova
do fim da juventude. O
retrato destruído de Dorian Gray.

Pedido de socorro que veio tarde demais, pequena criada de
magros olhos tristes sorrindo de fome,
do meu seio só saiu leite em pó. Pequena criada da destruição em massa,
buscava a falta de complacência ao me
deixar às traças. Infâmia vestida de piada e meu pedido de socorro
deixou de significar algo.

“M.E.D.O. é o sentimento, ansiedade é a sensação” foram as
últimas palavras ao meu pedido de socorro, mas deixo claro que
haverão outros e que o seu
nirvana não poderá livrá-lo dessa.

[O que ninguém jamais perguntou é se o
nirvana é o mesmo para todo mundo e eu acho
que não porque o seu só me fez chorar e me deu
tudo menos paz.]

Loucura minha achar que uma prova desse tamanho
de que o mundo é cruel seria
minha chave de liberdade. Aliás, loucura não. Inocência...
E o resto da que tive se esvai agora por entre meus dedos de
membro perdido da vida. Quase me sinto outra.

IV
Criatura perdida, filha abandonada de deus. Eu? Eu
fugi no segundo mês, acometido pelo desesperado sentimento de necessidade
de uma calma maior. Larguei os detalhes e pisei no mundo aqui fora como quem pisa em nuvem
macia feita de algodão. Já não sei como anda nada,
nem como fui feito de tantos dissabores assim... Sinto-me estranho.
Parece até
dor. Dor? Mesmo? Não, não... Incômodo raso de curta duração.
Viu? Passsou. Mostro-te a ponta do iceberg, meu caro;
por baixo dessas minhas camadas de gente há um monstro de gelo, e eu o sou, e ele me é.

Na minha boca sinto o gosto amargo de vencer sem ganhar porra nenhuma, e aqui
estou eu. Se antes acreditava que abandonei, creio que o ato se inverteu.
E por aí eu caminho a passos tortos procurando uma alma perdida qualquer para
lamber minhas desonras e fraquezas. Vida insípida demais
para alguém que acredita ser deus ele próprio.

Tenho mantido meus tropeços longe daquilo que por minutos chamei de meu, aquela
pequena forma de vida por cima de mim, querendo tornar-se grande.
Matenho-me distante do que antes fora responsabilidade e minha e agora é só mais uma
memória
diáfana.

[Fazer-se de memórias imprecisas é perigoso, pois já não se sabe mais da real natureza
de certas passagens. Entre sonhos e fatos verdadeiros, o que fica na sua mente é
apenas borrões mal-construídos.
Quem sou eu se não um personagem cheio de imagens misturadas na cabeça?
Meus medos maiores são as memórias inventadas.]

Dou minha cara a tapa a qualquer cara pálida por aí, pois eu
já não funciono ou sirvo para coisa alguma. Sou só mais um anjo caído, estraçalhado,
perdido nesse mundo infinito de gente pouco polida.
Desconforto conduzido.

V
Leveza
           inquieta
                       brincalhona
de quem acaba de levantar do sonho mais longo da vida toda, seguida de desespero
dolorido, cego. Comecei assim, foi como me disseram.
Hoje, envolta em amarelo pálido, não me lembro do outro. Só lembro dessa que ficou.
Há dias que chora mais que eu, e a fome aperta em nós duas. Não é só essa fome aí que todo
mundo pensa e teme,
é aquela outra fome, sabe? Aquela fome de ser maior
e mais forte, fome de ter forma de leão pomposo como aqueles homens de filme antigo.
Mas eu estou longe disso; bem longe, é fato. Sou algo como o contrário
da fonte da juventude. Retirei a vitalidade dessa que me tem pra si como importante.

Eu sei que sou fruto da infância interrompida, e que a ingenuidade me criou. Sei também
que fui feita de uma mistura mal-feita do doce com o amargo;
pitadas de sal não foram adicionadas à minha receita de moleca perturbada.

A moeda de troca de onde estou agora é o ódio velado. Eu odeio quem me odeia e isso
fica bem claro sem nem ser dito, a vida é toda assim. Antigamente
eu via os céus estrelados como milagres diários, mas a fumaça do cigarro de minha progenitora
enevoou minhas noites. Tenho pavor de morrer sem rever as estrelas do jeito que via antes. E percebo,
vez ou outra, o tanto que sou nova para ter esse tipo de medo.

[Existe, sim, um certo perigo em temer muita coisa muito cedo, pois sabe-se
que nem tudo foi vivido ainda e quando se teme, dificulta-se o ato de viver o que se é necessário.
Quando se faz como eu, morrer é algo distante,
mas viver de fato é mais distante ainda. Como se diz? Antes viver pouco
que gastar o tempo apenas sobrevivendo. Ou qualquer coisa assim.]

Hoje meu Registro Geral me dá dezesseis anos.
Dez-e-seis anos de precaução e medo do novo, do alheio. Sou aquela que,
desinteressada, não se rebela por nada.
Meu Registro Geral diz que meus dez-e-seis anos estão em seu fim e eu não dei um passo
fora da linha estipulada por mim mesma há seis anos. Existem aqueles que estranham, tenho
a cautela de um senhor de setenta anos
“são os traumas – deixa a menina!”

Pois encurralo-me na solitária que eu mesma criei. Diferente do que mamãe fizera há dez-e-seis anos.

terça-feira, 9 de junho de 2015

carbonato de lítio

II

Um comprimido por dia ao "acordar".
450mg – uso adulto
“Níveis tóxicos do lítio estão próximos a níveis terapêuticos. Os pacientes e seus familiares devem estar atentos a sintomas precoces de intoxicação, interrompendo o uso da droga e informando o seu médico imediatamente.”

Não passar de um comprimido por dia ao "acordar".
Mas eu preciso mesmo levantar? Sair
da cama, do quarto... Lavar o rosto e encarar o espelho que não mostra
nada novo?
Doença cretina escancarada nas olheiras,
bolsas negras sem vida sob as janelas da alma. Que irônico é não sonhar.

Estranho, entretanto, é esse sentimento antitético de esperança e
desapontamento precoce. Eu sei que
esse tipo de droga pega o caminho mais comprido pra chegar ao seu destino final. Isso tudo
para que eu não tenha um final.
Não assim tão cedo.

Dia 1, dia 2.
Dia 3, dia 4, ... , dia 6.
Segunda semana de medicação – picture here a blackboard [NO CHALK]. Então eu escrevi
com as unhas, arranhando o quadro eu escrevi o que sentia:
d e s e  s   p    e     r       o
do tipo que ecoa, do tipo que atormenta de fato. E DE FATO eu entrei em desespero.
Agonia profunda.
Dor.

O real fundo do poço antes da luz da saída. Disseram-me. Agora entendo.
A sensação-buraco com toda a sua força.
O mundo meio turvo o dia inteiro, coberto de cansaço e aquela amiga íntima,
a Solidão. O meio mais fácil é seguir com o véu,

esperar ele cair sozinho.

Dois comprimidos por dia.

Vício

O gosto amargo do café
misturado às mágoas do cigarro.
Um rosto pensativo,
os olhos encarando o vazio.

O nada.
Aquela velha questão
do porquê do vício fétido...
E mais um trago.

O cigarro chegando na
met
ade.
Mais um trago.
As fumaças se misturam.
A cena é linda.
O vício da beleza.
E mais um trago.

A fumaça inquieta.
Ele calmo.
O vício do paradoxo.
Mais um trago...

O cigarro está no fim...
É o último e ele não sabe
se vale a pena.
O cigarro acaba,
o filtro vai ao chão,
pisado como ele mesmo já fora tantas vezes...

Valeu a pena?
O vício dúbio
             dialético
               humano.

domingo, 29 de março de 2015

Um sonho de uma amiga e o exagero da realidade a partir do mesmo ou "I can't quit you, baby"

A minha vida acabou no momento em que a dele acabou. Exatamente como o rolê, que morreu junto com ele. Nosso centro acadêmico murchou, parece que fechou junto com o caixão... Ainda não entendi muito bem como aquilo aconteceu. Não entendi como ele pôde fazer isso comigo. E essas palavras ecoam na minha mente... Não. Ecoam na minha alma. 

"Como você pôde me deixar sem dizer adeus...? Eu não estou pronta... Eu não estou pronta."

Sei que ele não teve escolha, mas é que achei tão injusto! Seu colar está comigo e eu nunca gostei de perder amigos. Mas perdê-lo é outro nível de dor. Perdê-lo é como perder o chão. Não, não vou transformar isso em uma comparação... Perdê-lo é perder o chão. É quase literal, porque eu sei e todos que me conhecem sabem: estou, no momento, em uma queda de agonia infinita.

Eu me sinto infinita do jeito errado.
Baby, baby, baby, baby... Why did you have to leave me?